Criado e escrito por Lucas Richardson

sábado, 30 de agosto de 2014

Rascunho

Antes de ler: este texto é literalmente um rascunho e há verdade com ficção camuflados. Tudo é uma versão do que já foi e nada escrito é inteiramente verdade.

Arte de Lucas Richardson

ANTES DO PRIMEIRO DIA

“Estava te imaginando como se você fosse um seriado. Todas as prévias que tive dele me deixaram com muita vontade de vê-lo. Só que esse seriado eu não poderei ver tudo de uma vez. Terá que ser aos poucos, capítulo por capítulo, e ainda não sei quantos capítulos verei, nem de quanto em quanto tempo. Mas a cada minuto que passa, eu quero fazer maratonas dele e fico mais ansioso.”
“Se eu fosse um seriado, eu provavelmente seria um daqueles que vários adoram na primeira temporada e criam várias expectativas pra segunda e aí quando lança, é uma decepção e todo mundo esquece da série e aí cancelam.”
“Sim, você seria esse seriado. Porque as pessoas assistiriam pelo motivo errado. Não entenderiam suas metáforas, não veriam como deve ser visto, não entenderiam a complexidade desse seriado. O lado romântico, mas confuso. Vários não teriam paciência até ele começar a revelar seus mistérios e desenrolar sua história. Mas sempre há quem assiste, entende, se apaixona, vicia e continua fiel até o fim.”


DEPOIS PRIMEIRO DIA

     “Já tô com saudade.“
     “Eu também. O seu piloto foi o suficiente para me    conquistar. E como você está se sentindo agora?”
“Eu tô muito feliz, de verdade.”


ENTRE O INÍCIO E O FIM

“Estava pensando: espaço entre mundos. E me ocorreu que a palavra espaço tem mais de um significado, que existe o espaço (universo) e o espaço entre dois objetos, por exemplo. E que a frase ‘espaço entre mundos’, pensando assim, se torna uma frase muito interessante porque os mundos estão no espaço e separados com um espaço entre eles. E pensei em nós, como se fossemos dois mundos. E o espaço que há entre nós, a distância, é também o espaço que mantém nossos mundos no mesmo universo, como se nesse universo repleto de mundos, os nossos mundos estivessem conectados por uma ponte que liga o espaço que há entre eles, e apesar desse espaço eles permanecem conectados mesmo quando estão longe porque agora eles vivem num espaço em que só os dois se encontram, como se no universo não existisse outro mundo além deles. Quando eu te vi, você provocou um terremoto tão intenso dentro de mim, e eu dentro de você, que explodimos juntos como um big bang e criamos o nosso próprio universo, e o universo é infinito, a razão pela qual nos sentimos infinitos quando estamos juntos. Nós criamos o nosso próprio universo.”
“Nossa eu te amo tanto que deu vontade de enfiar a cabeça pra fora da janela e gritar.”


ÚLTIMO DIA

     “O que aconteceu?”
     “Eu não sei amar ainda.”


Antes de começar um desenho, levo em consideração três coisas. A primeira: mãos limpas. Limpeza é essencial para o desenho. Caso contrário, terminado o desenho, minha impressão digital carimbada no papel pode se passar por uma sombra suja onde não há sombra. A segunda: paciência. Antes de desenhá-la, fiquei dias olhando para ela. Ficava parado com os olhos fixos decorando seus detalhes, aprendendo as sinuosidades de seu rosto, entendo seu olhar, conhecendo todos os pontos que se conectam e juntos constroem tudo o que ela é desde sua alma à uma rachadura mínima em seus lábios. E depois de observá-la, comecei rabiscando seus traços, e suas curvas foram brevemente representadas na cavidade áspera do papel. O primeiro rascunho foi um fracasso. Foram três folhas rasgadas de tanto apagar e fazer de novo. E enquanto esboçava seu rosto na tela, juntos, eu e ela, esboçávamos um ao outro. Mas rascunhos são feitos para uma vida breve. Ninguém faz um rascunho para emoldurar e colocar na parede. É um teste, uma base. E a terceira: paixão. É preciso estar apaixonado pelo que estou prestes a reproduzir, a “criar” de acordo com minha visão, e ficar horas e horas, e às vezes, até meses, ali, com os olhos fixos. Sem a paixão não há paciência. No primeiro erro, a vontade seria óbvia, abandonar o desenho. Com a paixão, a paciência é uma consequência. Encontra-se prazer nas horas investidas, nasce a raiva por erros aparentemente mínimos, mas que aos olhos tornam-se gritantes. E desenhando-a, passei a ser desenhado. Sob sua pele representada pelo grafite deixei escorrer minha alma. Cada movimento era uma representação minha através dela. Ela ficava me olhando com suas pupilas dilatadas que me encaravam como se procurassem uma resposta em mim e quisessem entender os rabiscos que a vida estava delineando em nós, sentada como se seu corpo se sentisse abraçado por meus olhos toda vez que os desviava da tela para ela. Em determinados momentos sua respiração ficava ofegante e minhas mãos tremiam acompanhando as batidas estupefatas de meu coração. Os contornos dela com meus rabiscos se completavam como instrumentos se completam em uma harmonia de Bach.
Com doze anos, estava olhando o álbum de fotos com as obras do meu professor de desenho. Reparei bem no processo de produção de um quadro a tinta a óleo. No quadro, dois boxeadores se enfrentavam com uma arena lotada ao fundo. Mas antes de pintar, observei que ele fez de rascunho na tela um desenho realista à carvão. O interessante é que se não fosse uma pintura, mas apenas um desenho, estaria concluído. Para alcançar o melhor resultado possível na pintura, ele precisou fazer dois rascunhos. O rascunho do rascunho e o rascunho da pintura. Ainda restando traços que logo foram substituídos, já não era mais possível ver o nosso rascunho. As palavras de ontem começaram a ser esquecidas, as emoções de quando começamos o quadro ficaram no início, e os traços de antes não importavam mais. Agora era preciso fazer contornos mais fortes, usar outras técnicas e observar novos detalhes. Mas, com o tempo, ela começou a ficar entediada e eu a cometer erros que já não podiam ser corrigidos. As pupilas diminuíram e minhas mãos pareciam sempre sujas. Era como se o desenho estivesse se perdendo nele mesmo, estava indefinido e esfumaçado como uma neblina negra. Não importa se o rascunho ficou perfeito se você não consegue concluir o desenho com o mesmo empenho e habilidade com que começou. Há momentos que um esboço se finge de obra prima e esquece que ainda é apenas um rascunho.
Quando a comparei com um seriado, disse que não poderia ver tudo de uma vez e que precisaria ver aos poucos, capítulo por capítulo. Mas a “devorei” como um esfomeado que não come a dias. Não a deixei descansar enquanto a desenhava, não teve uma pausa. A ansiedade nos devora diante da pressa que às vezes temos em devorar algo sem tomar o devido tempo necessário. Mas deve estar na natureza das pessoas destruir as coisas aos poucos como o mundo vem sendo destruído ao longo dos tempos, como o nosso universo que criamos com uma explosão quando nos encontramos foi destruído com o passar dos dias dando fim ao que não tem fim, o infinito. Como a natureza muda, mudamos com o tempo, devagar. De repente, olhamos no espelho e parece que tudo está diferente e as coisas de ontem já não servem para hoje. Os sentimentos de um determinado dia não servem mais para hoje. As palavras que provocaram emoções ontem, não servem mais para hoje. Como as folhas nas árvores nascem, ficam ali por um tempo e depois morrem e caem, os relacionamentos são. Se não se renovarem sempre, como as folhas, eles morrem. O mais importante não é o que faz uma pessoa se apaixonar, mas o que faz o relacionamento permanecer.
Invejo as pessoas que tem um relacionamento como o Retrato de Dorian Gray, o relacionamento que resiste a tudo.