Criado e escrito por Lucas Richardson

segunda-feira, 4 de março de 2013

Suicídio

Arte de Lucas Richardson

A casa estava vazia. O ensejo perfeito para transformar sua louca idealização num polêmico fato. Cometeria um suicídio artístico. O lusco-fusco se aproximava e logo o sol se despediria para aquele dia, e junto dele, ela daria adeus para a vida. Estando o céu tingido de vermelho, a sua pele estaria tingida de sangue. Significaria o crepúsculo de sua existência, a transição, o marco. Pegaria carona com o negro, o negrume da noite seria a última coisa que veria, como um fade out para sua atual realidade. A penumbra comporia a pintura a marcar sua extenuação, como no quadro “Noite sobre Ródano”, de Van Gogh. As luzes banhariam seu corpo refletindo nele como se fosse um rio. Ela naufragaria deitada sob a janela aberta para o céu agressivamente pincelado: o retrato da paz nocauteado pelo desespero do medo, da morte. Como era uma ocasião especial, ela se arrumou como noiva. Estava linda, pronta para casar, pronta, para morrer.
Caminhou com os pés descalços até a cozinha e apanhou uma faca de açougueiro. A arma perfeita: experiente em ferir a carne; com pós-graduação em corte; com o cheiro de sangue ali esquecido, impregnado. Seria um golpe único, certeiro. Criaria coragem e após respirar fundo – sem pensar e mirando o coração – empurraria a lâmina com força enterrando-a no tórax. Um corte ágil, como um mergulho em água gelada. A dor abraçaria seu corpo e logo ela não sentiria mais nada, afinal, estaria morta. Cravaria a faca no peito, no coração. Rápido e eficaz. Precisava sangrar e sentir a dor, rasgar a pele, dilacerar seu interior.
Tal frenesi, na verdade, se tratava de um suicídio interno, planejado, metafórico. Elaborou se esparramar em sua loucura nua como nasceu, deitada na posição de um bebê no ventre de sua mãe, com as luzes do mundo a cortar o breu da sala escura iluminando sua nudez vestindo suco carmesim. Sentia-se sufocada e presa e incapaz, como uma lagarta no casulo. Carecia do desmoronamento dessa barreira que a cercava. A facada no peito significaria o rompimento do casulo, a demolição do muro, a sua liberdade. Como uma borboleta passaria a ter asas e encontraria o seu voo, se tornaria uma nova mulher. Esqueceria tudo o que quer esquecer, superaria tudo o que quer superar. Forrou o chão com um lençol branco para não deitar no piso gelado e para que o lençol sorvesse seu sangue. Tudo teria um significado. A nudez: o renascimento; o sangue absorvido: a declaração de independência do passado, como um documento, a prova por escrito de seu delito; a cicatriz: a assinatura, a marca perpétua que a faria lembrar que ela precisou se cortar para ser livre. Pensou inclusive em filmar seu delírio tendo a câmera como cúmplice de sua metamorfose, mas logo ignorou a hipótese porque o olho mecânico tiraria a inocência da coisa e tornaria sua liberdade em algo teatral ao roubar a sinceridade do ato.
O plano era perfeito. Alguém a encontraria deitada no chão abrangendo seu corpo, abraçando o crime, encolhendo-se em si mesma, tremendo. E a carregaria no colo como uma mãe segura seu filho que acabou de nascer, ainda embalsamado no sangue e envolvido num pano a protegê-lo: o mesmo sucederia com ela. Levada ao hospital ouviria vozes ecoando ao seu redor questionando sua atitude e sua sanidade, mas ninguém a entenderia. Na maca um sorriso não se ocultaria de seus lábios apesar das lágrimas de dor. Estaria livre, e ninguém a entenderia. Seu desvario consistia num grito de socorro, como se sua alma fosse o corpo e o corpo a alma. Achava que ao ferir o corpo atingiria também a alma. A ferida: a cura; o sofrimento: a cicatrização da alma.
Deslocou-se para a sala e parou em frente à janela, o lugar marcado para morrer, ou renascer. Esticou os braços acima da cabeça segurando com as duas mãos a faca voltada para ela. Levantou seus olhos e viu a lâmina mirando o alvo, pronta para infligir à lei do bom senso. Após semanas de ensaio e preparo psicológico, finalmente estava na posição para dar a largada e colocar em prática sua insanidade, a sua salvação. Ao enxergar a morte na palma de suas pequenas mãos ela pode sentir seu coração rasgar e sua alma se contorcer. Seus braços começaram a tremer, a dúvida tomou conta dela, o medo estava lá. Fechou os olhos. Talvez devesse tentar de olhos fechados, como fechava os olhos para tudo na vida, menos para o medo, e dessa vez, tentava não enxergar o medo, o medo que na verdade era a vontade de viver gritando, e o único medo que ela tentava ignorar era o medo de morrer. Mas, apesar dos olhos cerrados a imagem da faca permaneceu viva e ameaçadora. De súbito toda certeza desapareceu e a dúvida a invadiu como um ladrão, sem ser convidada, e de praxe roubou sua convicção no ato tenebroso que prometia transformá-la. Mas, qual a certeza que essa tal transformação ocorreria de fato? “E depois?”, pensou, “como conviver com as pessoas perguntando sobre a cicatriz? Como encarar a condenação de seus olhos, o julgamento, as fofocas? Ninguém jamais me entenderá. E se eu morrer de verdade?”. Questionamentos que a fizeram retroceder no ato que significaria uma ruptura em sua vida.
Acalmando os nervos, trouxe a lâmina para perto do peito e levemente a encostou como quem molha os pés antes de um mergulho para verificar se deve ou não pular. Sentiu uma picada aguda que doeu de modo que seu corpo estremeceu de pavor. Se uma leve beliscada já provocara certo desequilíbrio em sua convicção, o fim de uma apunhalada talvez não rumasse para o que tanto almejava. “Eu só queria mudar”, dizia para si mesma com o ânimo desabado, com o corpo desabado no chão, de joelhos, com lágrimas a escorregar em sua delicada face.
Ela não sabia, mas já cometia suicídio todos os dias. O suicídio do remorso, o suicídio de viver no passado, o suicídio de viver a lamentar. Queria mudar: mudou de casa, mudou o guarda-roupa, o penteado, as amizades, et cetera. Mas não mudou os hábitos, e no fim não mudou nada.
 Largou a faca, largou seu plano, largou a loucura. Levantou-se, mas se levantou como se estivesse se reerguendo para a vida. O seu teatro não tinha sido em vão. Não seguiria o roteiro ao pé da letra, mas faria uso da metáfora, ou tentaria. Tomou um banho gelado, afinal também cortava a carne, arrepiava a pele. Preparou um chá com biscoitos e foi ver um filme. Conformou-se com sua inconformação. 

Como a luz de uma vela que fere a escuridão com seu fulgor vacilante e um sopro inimigo pode apagar sua chama e fazê-la morrer tão rápido quanto foi acesa; assim é a sua esperança que no abismo pode levá-la a cair ao ser apagada por um vento contrário.

4 comentários:

  1. Uma vez eu li em um livro que os grandes poetas e escritores escrevem de uma maneira permitindo que todas as pessoas, de um jeito diferente, se identifiquem. Você consegue isso.
    Já tentei te comparar com os escritores que eu gosto e até com os que eu não gosto. Já disse à mim mesma que você tinha uma característica de um, outra característica de outro e mais uma de um terceiro, mas não, o que você escreve me lembra você mesmo, e só. Seus textos, seus poemas são únicos. Você é único.
    Sobre o texto, ela não é a única covarde. Queria abraça-la (pra ser abraçada também) e dizer que dividimos o mesmo fracasso. Seguir em frente nem sempre é suficiente.

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  2. Quando os suicídios interiores já não nos bastam, os suicídios carnais são os únicos que parecem resolver. Mas mesmo estando mortos, esperemos até renascermos.

    (Flores)

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  3. Pensei, repensei o que comentar, me identifiquei com o texto de alguma forma, não, tô me enganando, me identifiquei nessas letras digitadas por uma mente brilhante de muitas formas. A morte me assusta, poucas vezes a desejei. Desejo mesmo é matar essa frustração, esse desgosto, essa coisa que fala coisas ruins na minha cabeça dia e noite, mas morrer eu não quero, pelo simples medo de não saber o que é depois, ou o que não é. O duro da vida, é que muita coisa só aprendemos depois que a serventia acaba...Fica com as reticências, você sempre tem boas histórias pra elas. O suicídio é diário e grudento.

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  4. Nossa! Suspirei...Sem palavras! Clap Clap Clap (aplausos... apenas)

    www.amoresefemeros.blogspot.com.br

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