Criado e escrito por Lucas Richardson

sábado, 8 de dezembro de 2012

Labirinto

Arte de Lucas Richardson

Sinto que minha vida é como um labirinto de vidro. Está uma esplêndida manhã, acordei com o canto lírico dos pássaros em sua reunião diária e harmônica, os pássaros são a própria plateia e todo aquele que aprecia sua orquestra se faz plateia também. Sentado numa grama verde primavera e amena como um colchão, danço meus olhos ao redor contemplando a paisagem banhada pelo sol que pinta o céu com seu degrade vermelho-alaranjado. É primavera e o ar é límpido e agradável, não faz frio nem calor, o sol brilha sem ferir meus olhos e sem sorver o suor de minha pele abraçada por uma brisa suave que paira sobre este jardim perfeito. Posso ver a alegria das flores que espreguiçam com o nascer do dia ou o nascer da vida, flores de todos os tipos e tamanhos e cores e cheiros, rosas, azaleias, lírios, margaridas, girassóis. Eu poderia deitar e nunca mais me levantar. Mas, estou “preso”, encurralado num labirinto de vidro. Sei que parece contraditório um labirinto formado por inúmeras paredes transparentes como água cristalina que me permitem enxergar até onde meus os olhos conseguem ver, tornando assim mais fácil o mistério do caminho, mas por mais contraditório que pareça é em ver que está o mistério. Olho para o horizonte e avisto o fim do labirinto, um portão de prata muito grande e aberto como se estivesse aguardando minha chegada. Mas, apesar de enxergar a saída estou preso, embora eu saiba qual a direção seguir estou encurralado, apesar de ver a saída não vejo uma saída. Já não sei mais há quanto tempo estou neste lugar, e também não me preocupo com isso e não me preocupo com nada. Uma das melhores coisas é não ter preocupação nenhuma e não ter relógio e esquecer que o tempo existe. Labirintos são como uma caixinha de surpresa com uma fechadura que para ser aberta você precisa solucionar um enigma, quando você entra em um labirinto você vai caminhando e procurando até encontrar o centro dele e descobrir o que te aguarda, pode ser algo bom ou ruim ou os dois ao mesmo tempo. No entendo, estou no centro sem saber como cheguei aqui e só existem duas opções: permanecer e desfrutar desse manjar até o fim dos meus dias ou descobrir o que me aguarda na saída. Irônico, em vez de não saber o que me espera no centro eu não sei o que me aguarda no início, que na verdade parece ser o fim. E fico a perguntar-me, “o que me espera no fim desse enigma? Será que vale a pena largar o conforto deste inicio para chegar a um duvidoso fim?”.
Acomodado, permaneci onde estava vivendo sem preocupações apenas comendo e bebendo e dormindo. Acontece que a primavera não é eterna e o outono anunciou sua chegada e fez as flores e todas as plantas e árvores chorar suas pétalas e folhas por toda parte revestindo o chão do jardim como um imenso lençol. O ar ficou mais frio e passou a incomodar de madrugada e o único refúgio que encontrava era namorar o céu forrado por um tapete de estrelas sem fim acompanhado pela lua encantadora. De súbito, como um presente de grego, da noite para o dia o inverno invadiu o labirinto e uma chuva de gelo banhou meu corpo e a neve deitou sobre a grama e cobriu toda sua extensão como um imenso cobertor branco. A geada embaçou o vidro do labirinto inteiro tornando-me cego para o que antes era o meu privilégio e agora eu não podia mais ver por entre os muros, o labirinto de vidro se transformou em um labirinto comum, um enigma, a charada do caminho. Eu tremia de frio de extremidade a extremidade. Restaram-me duas opções: ou morria congelado ou encontrava a saída.
O tempo que era longo se tornou curto e o que era claro se tornou escuro. Destrinchei aquele labirinto com minha memória usando a lembrança das muitas vezes que observei o portão aberto. Comecei a caminhar antes que congelasse me encolhendo em meu próprio corpo e aquecendo-me com minhas mãos. Por um tempo me convenci de que estava perdido e que ia morrer e que eu havia cavado minha própria cova. Parecia inútil tentar recuperar o tempo perdido, “você teve todo o tempo do mundo para sair daqui seu idiota”, eu pensava e me martirizava e reclamava. Perdi a noção do tempo e já não via diferença entre dia e a noite e após vagar desgovernadamente como um milagre eu encontrei o tão sonhado portão. Mas, nem tudo era como eu esperava. O portão estava fechado e preso em sua imensa grade de prata tinha um enorme espelho com uma inscrição em letras garrafais gravadas na parte superior dizendo, “Diga olá para o seu novo eu”, e quando encarei minha face e olhei em meus olhos, meu coração disparou e fiquei branco como a neve que cobria meus pés. Eu estava dez anos mais velho. Engordei alguns quilos e em meu rosto surgiram algumas rugas e marcas e minha aparência estava cansada.
Como mágica de súbito o portão misteriosamente se abriu e o que eu pensei ser o fim era apenas o início. Aquele labirinto adentrava em outro labirinto também de vidro, mas três vezes maior, e nele não havia inverno, o sol era quente como no verão. Com um pé eu pisava em branco e com o outro em verde. E eu que achava que ao adentrar no novo labirinto aquele inverno se extinguiria me surpreendi ao passar de um lado para o outro e ver o portão se fechar atrás de mim e o inverno permanecer como uma fotografia, imutável. Todavia, no espelho com as mesmas letras garrafais agora havia apenas duas palavras escritas, em cima, “passado” e embaixo “lembranças”. Ao ver meu rosto no espelho eu podia enxergar todas as minhas fazes da vida e as muitas faces do meu passado. Virei-me e admirei aquela planície praticamente sem fim com paredes de vidro por todos os lados. Eu tinha duas opções: seguir em frente ou esperar pelo inverno.
Naquele momento senti falta de ter a vida inteira pela frente e a oportunidade de poder ser o que quisesse ser, como fazer. Senti falta de ter o tempo, os anos e a vida ainda intactos e de não ter preocupações. Mas, o fato de não ter preocupações foi o que acabou me acomodando a não me preocupar e por isso perdi muito tempo com a ideia de que o tempo era eterno. É impossível recuperar o tempo perdido, porque para recuperar o tempo perdido no passado é preciso sacrificar o seu tempo do presente. Tempo perdido é tempo perdido. Senti falta da oportunidade que tinha de não estragar minha vida.
De repente, desperto de um sono profundo e percebo que tudo não passou de um sonho, mas sou tomado por uma noção de realidade tão grande que chego pensar que o sonho não é um sonho e que de fato estou dez anos mais velho. Corro para o espelho e ao ver que nada mudou, volto a dormir.