Criado e escrito por Lucas Richardson

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Reflexo

Arte de Lucas Richardson

Fecho meus olhos e me assisto em meu passado, como um filme de trás para diante, vou rebobinando a memória e caminhando ao contrário em minha imaginação. Vejo meu rosto rejuvenescer na medida em que vou retrocedendo, e permaneço descendo na escada da vida, cada degrau simboliza uma idade, e em cada degrau há um baú, e nesses baús estão escondidas minhas lembranças daquele ano, e abro um baú por vez, danço meus braços em cada um deles procurando memórias, buscando sorrisos esquecidos e lágrimas eternizadas, e conforme vou descendo, minhas emoções vão mudando, e passo a me conhecer de uma maneira que não me conhecia, começo a entender dores que antes eram enigmas, e muito do que antes não fazia sentido algum passa a fazer todo sentido, mas sempre haverá o desejo de mudar o que não se muda, e o anseio de voltar e fazer diferente. Passo por meus quinze, quatorze e treze anos, e prossigo descendo, até que chego aos meus sete anos de idade, e nesse baú eu encontro suor, lágrimas e sangue derramado, além de sorrisos e o desejo de fugir, e entendo que muito da minha vontade de não querer encarar os meus medos vem dos acontecimentos da infância. Observo o meu eu infantil em um dia marcado pela dor, e reparo aquele menino todo machucado, com a face em carne viva, que fora desafiada pelo asfalto quente e pelo sol de verão, afligida pela desobediência ao contradizer a palavra de sua mãe, um breve erro que lhe custou um grave acidente. Eu não sabia, mas meu inconsciente já vinha me preparando para o pior através de sonhos maus, ou pesadelos, ou quando sonhando caminho para o nada e do nada encontro um abismo e do abismo caio para o nada, e nesses momentos de desespero e medo em que me deparo, sempre acho uma saída, que é acordar, como se acordar significasse encontrar a liberdade para tudo o que é ruim, mas o engraçado é que acordado, em diversas ocasiões anseio sonhar para fugir da realidade, e muitas vezes vivo nessa contradição entre o sonho e realidade, quando o que quero é apenas fugir do que é ruim. Se o sonho for tenebroso, faço de tudo para acordar, e quando a realidade é sofrida, quero sonhar, o que me faz optar para o caminho da imaginação, o espaço entre o sonho e a realidade em que tenho total controle sobre minhas ações e desejos e acontecimentos. Continuo me assistindo e observo aquele menino que se encontra atirado no asfalto cáustico, com o semblante dividido entre a carne e o sangue após ser drasticamente atropelado. E ao ouvir o som da tragédia composto pelo timbre da voz de uma criança, e não uma voz qualquer, mas uma voz inconfundível para os ouvidos de seu pai, que corre ao encontro de seu filho, e ao vê-lo ali, agonizando, às pressas pega-o em seu colo, e o abraça com segurança, como se dissesse com seus gestos, “eu estou aqui, filho, vai ficar tudo bem”, e aquele menino confia em seu pai, apesar do choro que lava seu corpo juntamente do sangue derramado, e lamenta em voz alta, “pai! É só um sonho, não é? Eu vou acordar, não vou? É só um sonho pai, eu sei que é só um sonho, sei que vou acordar, não vou?”. Chorava porque não queria pagar o preço por meu erro, não ansiava enfrentar a dor, queria “acordar”, mas não adianta tentar substituir a realidade da dor por uma fantasia, é possível tentar, e pode ser que por alguns momentos, ou até mesmo horas, funcione, e funciona, mas em seguida, lá está a dor de novo, machucando e me desafiando a vencê-la. Às vezes desejo "morrer", anseio por uma "morte" súbita, um falso perecer, para certos momentos de desespero, medo ou aflição, para que eu possa acordar e de repente tudo estar resolvido, como mágica. E seu pai, para confortar o coração daquele menino, disse, “sim filho, é só um sonho, logo você acorda, é só um sonho”.
E como o garoto queria desafiar a realidade com a fantasia e esquivar do que é real através dos sonhos, o menino que hoje é o meu eu adulto, não mudou. Sempre que a dor ou um problema ou o sofrimento batem à minha porta, finjo que não estou em casa, ignoro a campainha do desespero, e simulo que estou dormindo, desejo que seja um sonho, procuro fugir e não encarar o que deveria enfrentar. E para escapar do que não quero confrontar, recorro à arte, leio um livro e converso com o autor em silêncio, ou escrevo e vomito no papel toda minha angústia, ou assisto a um filme para me desvencilhar da minha realidade e “viver” outra “realidade”, ou descarrego em alguém tudo o que estou passando como um diário falado, ou saio pelo mundo recolhendo saudades para dentro de casa observando e fotografando, ou me torno um artista que se perde nos próprios traços desenhando e pintando, ou deixo a música me transportar desta realidade para outra. Mas, cada um tem a sua válvula de escape, e o que mais me ajuda a fugir da realidade é o cinema, o lugar onde os sonhos são reais, a fantasia finge ser autêntica e a ilusão brinca de realidade. No cinema vivo grandes emoções, estímulos que apesar de serem arquitetadas por um diretor, em diversas ocasiões parecem ser mais reais que a própria realidade. Quando o filme começa, a mente viaja para longe, navega no mar da imaginação e os olhos brilham, como os olhos de um navegador que enxerga terra à vista após meses e meses “perdido” no oceano, e seu coração dispara, porque todo o pesar está para trás, o sofrimento da viajem valeu a pena, porque agora ele está onde queria, a terra é a realização de um sonho, é a fantasia se tornando realidade, e os sonhos são reais no cinema, a mente encontra terra firme para descansar, a terra que é o sonho realizado. Mas, o navegador descobre que era apenas uma miragem, percebe que a ilha não existe, e todo aquele brilho se apaga, é o momento em que as luzes se acendem, quando o filme termina e acordo do sonho, que, apesar de parecer tão longo e real, foi tão curto e irreal. E o sofrimento que deveria ser breve, é cada vez mais longo, os problemas que foram esquecidos são lembrados, a dor volta a existir e o sonho a coexistir. A dor muitas vezes é apenas o reflexo da realidade, mas uma realidade que não quero enxergar ou aceitar, e em várias situações desisto de lutar e acabo acolhendo essa dor como uma mãe acolhe seu filho, passo a conviver com ela, e sem perceber isso vai consumindo meu interior, até que acordo, como se estivesse em sono profundo, e espero que tudo seja apenas um sonho, uma fantasia passageira, o que não é.
De tudo o que passei, permanecem cicatrizes em meu corpo, internas e externas, porque a dor eu já não me recordo mais, a agonia foi esquecida, o sentimento do pesar desapareceu, mas ficaram cicatrizes para que eu pudesse me lembrar da dor, e jamais esquecer o meu erro, seja o que for que me fez sofrer, assim como a alma também fica marcada com vestígios internos. As cicatrizes servem para me lembrar das dores que foram esquecidas.

18 comentários:

  1. A irrealidade, sempre refugiando de realidades, e a realidade, sempre salvando dos pesadelos.

    Muito bom.
    Flores.

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  2. Texto novo, yay! Gosto de ler seus textos, suas palavras me fazem bem, tu sabe disso não é? E estou pra dizer que esse foi um dos melhores textos teus que eu já li e o que mais me emocionou. A parte do seu acidente, em que você fala do seu pai... Faltou muito pouco pras lagrimas escorrerem pelo meu rosto. Não é exagero, mesmo. E as vezes é bom passear pelos baús da nossa memória e vermos como mudamos, como crescemos e vermos aquilo que ainda permanece conosco, mesmo com o passar dos anos.
    Enfim, Lucas, mais uma vez me encanto por suas palavras. E continue sempre assim. Você vai longe viu? Beijos e mais beijos!

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    1. É muito bom ler o que escreveu, Rê, fico contende ao descobrir isso.

      Muito obrigado, mesmo! Beijos.

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  3. "As lembranças e cicatrizes servem para me lembrar das dores que foram esquecidas". Nunca se esqueça as lições aprendidas na dor!

    Muito bom, querido. :)
    Au revoir!

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  4. Com tantos erros para cometer, seria uma tremenda bobagem insistir nos erros já vividos.

    Muito bom!

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  5. Lindo texto, a realidade e a dor que você transmite escorre por cada palavra, acento e vírgula. E nos toca de uma maneira misteriosa e incrivel, com certeza, um dos melhores texto que eu já li. Parabéns!


    Beijo enorme, Bea.

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    1. Muito obrigado Bea, que bom que gostou.

      Beijo.

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  6. Sou suspeita para falar o quanto eu gosto dos seus escritos, não sou? É que eles fazem uma ligação entre fantasia e realidade que traz um ótimo resultado ao final de tudo. Muito do que somos agora tem base no que nos aconteceu na infância, muita coisa mesmo. A nossa personalidade, nosso modo de lidar com problemas e com felicidade. Na infância, sempre que algo acontece, queremos e preferimos acreditar que foi só um sonho ruim. Geralmente perdemos isso ao longo do tempo, a não ser quando há um trauma envolvendo a questão. Se bem que, com ou sem trauma, muitas vezes nos pegamos tentando fugir do problema, trancar as portas, desligar o interfone, não atender a campainha, empurrar a situação com a barriga. É um mal de muitos. Mas o problema não vai embora porque fazemos isso. Eu, faço muito isso ainda, mas aos poucos aprendi a confrontá-lo de frente. O resultado são sonhos bons e uma sensação boa. Essa última frase do texto está me fazendo sorrir até agora, apesar de triste. Continue assim, escrevendo e encantando.
    Um beijo, @pequenatiss.

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    1. Nunca é demais saber que gosta do que escrevo e que gosta do final dos meus textos e tentarei não só continuar como melhorar porque pra mim nunca está bom. É sempre uma alegria ver um comentário seu e saber sua opinião.
      Um beijo.

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  7. Adorei. Olha... que honra ter recebido teu comentário no meu blog. É sempre bom (e demais) conhecer pessoas que escrevem tão bem quanto você. Que sorte a minha!

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    1. Poxa, muito obrigado! E que honra a minha te receber aqui com palavras que me fazem sorrir. E se você tem sorte, a minha sorte só pode ser em dobro.

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  8. Lucas, alguma vez eu já disse que você é espetacular?!
    É do tipo de texto que me prende, desses que eu leio em voz alta pra entrar de uma vez por toda nessas palavras e deixar rolar o texto, fazendo um filme em minha mente.
    Muito bom!

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    1. Letícia, muito obrigado, mesmo!
      Seu comentário e elogios me alegram tanto que até eu chego a achar que o meu texto é bom.
      Obrigado.

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  9. Suas palavras dançam diante dos meus olhos e me torno fora a realidade. Essas coisas parecem conforto pra alma, embora tudo que passe e tenha que passar esteja em confronto há algo. A vida é esse barulho batendo na porta. Por vez, o silêncio faz companhia e a gente ignora lá fora. Tudo passa a acontecer aqui dentro - (dentro da gente).

    Suas inspirações são como estrelas. A verdade é que o toque masculino nas palavras, deixa a gente mais encantada. É bonito te ver escrever. Estava com saudade daqui.

    Beijo, Ana

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    1. E eu estava com saudade da sua doce presença que faz toda diferença.
      E mais uma vez, muito obrigado. Seu comentário me faz sorrir.

      Beijo!

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