Criado e escrito por Lucas Richardson

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Frederico

Arte de Lucas Richardson

Frederico estimava a vida como uma valiosa dádiva, assim como um menino pobre valoriza um presente que nunca imaginou ganhar, ou que sonhava muito, mas que jamais acreditou que fosse realmente obter. Fred era um cachorro, mas não um cachorro comum, era esperto, indomável, metido e orgulhoso, não via obstáculos, apenas desafios, não se importava se a fêmea fosse mais alta, ou com o tamanho do seu oponente numa briga, nem em ser atropelado, e nenhuma grade ou porta ou portão conseguiam segurá-lo quando sua intenção era vagar pelo mundo, e fugia para depois voltar para casa, não suportava coleira. E como a juba é para o leão seu pelo era a sua vaidade, branco e macio como algodão, além de liso e comprido. Mas, o tempo passou e Frederico se viu abandonado por seu dono, um homem que não lhe dava mais carinho e amor, não o alimentava direito, não brincava, não o lavava e nem mesmo olhava para ele, e envelheceu, ficou cego e foi tomado por sardas e pulgas, seu pelo deixou de ser como era, estava caindo, todo embaraçado, imundo e encardido com seu sangue de tanto que se coçava. Manhoso, chorava todos os dias porque ansiava por atenção, estava sozinho, abandonado, machucado, e perdido em seu reino parou de latir, não se ouvia mais seus brados de alegria, de sua boca ecoavam apenas prantos que clamavam por ajuda. Até que Frederico parou de lutar pela vida e se deu por morto, nem chorar chorava mais, nem se coçar se coçava mais. A falta de amor o estava matando, a ausência de carinho havia lhe preparado o caixão antes do tempo. Acordado pelo silêncio, aquele homem foi ao encontro do seu cachorro e o viu abandonado por ele mesmo, e abismado com o que tinha permitido, ao avistá-lo ali, com seu brilho apagado, abatido e magro, com as pernas bambas e quase inanimadas, correu dar banho em Frederico com a esperança de que a água lavasse seu erro e purificasse seu cachorro e o libertasse da culpa que naquele instante tomou conta do seu coração. A compaixão se faz presente quando enxergamos e entendemos a dor de quem sofre. Mas, quando Frederico estava todo encharcado, aquele homem pode ver a carne ferida dele, o pelo marrom se desmanchando, a água suja escorrendo por suas mãos e aqueles vermes que se multiplicavam cada vez mais, seus olhos se arregalaram e ele se viu naquele cachorro, como um espelho que mostra o reflexo da alma, e sua alma estava se deteriorando, toda ensanguentada, cheia de vermes, magra e abandonada, ele havia se esquecido do seu cachorro porque havia se esquecido de si. E percebeu que não olhava para ele por medo de enxergar a verdade, e fugia de si mesmo por receio de ver o que se ocultava em seu intimo, a podridão do seu coração. Aquilo apertou seu âmago de tal modo que começou a chorar como um bebê que perdeu sua mãe, e aquele homem se sentiu abandonado e completamente sozinho, contudo não apenas esquecido pelo mundo, mas abandonado por ele e dele mesmo, e seu coração cingiu dentro do peito até que perdeu o fôlego, e só assim percebeu que tinha perdido o ar de viver e que sua alma já estava praticamente morta, deteriorada por falta de cuidados, como estava Frederico. Ele se encheu de remorso e a culpa o fez vomitar de nojo por si mesmo, e de tanto chorar suas lágrimas foram lavando sua alma, e aquele homem se arrependeu, abraçou Frederico como nunca e o apertando em seu corpo com todo o amor que tinha e esparramando lágrimas, uivando clamou por perdão. Amar é sentir em você a dor que não é sua e se arrepender quando você é o instrumento da dor. Fred, depois de muito tempo, latiu três vezes o mais alto que pode e desvencilhou a beijar aquele homem.
Deveríamos perdoar como os cachorros perdoam.