Criado e escrito por Lucas Richardson

sábado, 30 de agosto de 2014

Rascunho

Antes de ler: este texto é literalmente um rascunho e há verdade com ficção camuflados. Tudo é uma versão do que já foi e nada escrito é inteiramente verdade.

Arte de Lucas Richardson

ANTES DO PRIMEIRO DIA

“Estava te imaginando como se você fosse um seriado. Todas as prévias que tive dele me deixaram com muita vontade de vê-lo. Só que esse seriado eu não poderei ver tudo de uma vez. Terá que ser aos poucos, capítulo por capítulo, e ainda não sei quantos capítulos verei, nem de quanto em quanto tempo. Mas a cada minuto que passa, eu quero fazer maratonas dele e fico mais ansioso.”
“Se eu fosse um seriado, eu provavelmente seria um daqueles que vários adoram na primeira temporada e criam várias expectativas pra segunda e aí quando lança, é uma decepção e todo mundo esquece da série e aí cancelam.”
“Sim, você seria esse seriado. Porque as pessoas assistiriam pelo motivo errado. Não entenderiam suas metáforas, não veriam como deve ser visto, não entenderiam a complexidade desse seriado. O lado romântico, mas confuso. Vários não teriam paciência até ele começar a revelar seus mistérios e desenrolar sua história. Mas sempre há quem assiste, entende, se apaixona, vicia e continua fiel até o fim.”


DEPOIS PRIMEIRO DIA

     “Já tô com saudade.“
     “Eu também. O seu piloto foi o suficiente para me    conquistar. E como você está se sentindo agora?”
“Eu tô muito feliz, de verdade.”


ENTRE O INÍCIO E O FIM

“Estava pensando: espaço entre mundos. E me ocorreu que a palavra espaço tem mais de um significado, que existe o espaço (universo) e o espaço entre dois objetos, por exemplo. E que a frase ‘espaço entre mundos’, pensando assim, se torna uma frase muito interessante porque os mundos estão no espaço e separados com um espaço entre eles. E pensei em nós, como se fossemos dois mundos. E o espaço que há entre nós, a distância, é também o espaço que mantém nossos mundos no mesmo universo, como se nesse universo repleto de mundos, os nossos mundos estivessem conectados por uma ponte que liga o espaço que há entre eles, e apesar desse espaço eles permanecem conectados mesmo quando estão longe porque agora eles vivem num espaço em que só os dois se encontram, como se no universo não existisse outro mundo além deles. Quando eu te vi, você provocou um terremoto tão intenso dentro de mim, e eu dentro de você, que explodimos juntos como um big bang e criamos o nosso próprio universo, e o universo é infinito, a razão pela qual nos sentimos infinitos quando estamos juntos. Nós criamos o nosso próprio universo.”
“Nossa eu te amo tanto que deu vontade de enfiar a cabeça pra fora da janela e gritar.”


ÚLTIMO DIA

     “O que aconteceu?”
     “Eu não sei amar ainda.”


Antes de começar um desenho, levo em consideração três coisas. A primeira: mãos limpas. Limpeza é essencial para o desenho. Caso contrário, terminado o desenho, minha impressão digital carimbada no papel pode se passar por uma sombra suja onde não há sombra. A segunda: paciência. Antes de desenhá-la, fiquei dias olhando para ela. Ficava parado com os olhos fixos decorando seus detalhes, aprendendo as sinuosidades de seu rosto, entendo seu olhar, conhecendo todos os pontos que se conectam e juntos constroem tudo o que ela é desde sua alma à uma rachadura mínima em seus lábios. E depois de observá-la, comecei rabiscando seus traços, e suas curvas foram brevemente representadas na cavidade áspera do papel. O primeiro rascunho foi um fracasso. Foram três folhas rasgadas de tanto apagar e fazer de novo. E enquanto esboçava seu rosto na tela, juntos, eu e ela, esboçávamos um ao outro. Mas rascunhos são feitos para uma vida breve. Ninguém faz um rascunho para emoldurar e colocar na parede. É um teste, uma base. E a terceira: paixão. É preciso estar apaixonado pelo que estou prestes a reproduzir, a “criar” de acordo com minha visão, e ficar horas e horas, e às vezes, até meses, ali, com os olhos fixos. Sem a paixão não há paciência. No primeiro erro, a vontade seria óbvia, abandonar o desenho. Com a paixão, a paciência é uma consequência. Encontra-se prazer nas horas investidas, nasce a raiva por erros aparentemente mínimos, mas que aos olhos tornam-se gritantes. E desenhando-a, passei a ser desenhado. Sob sua pele representada pelo grafite deixei escorrer minha alma. Cada movimento era uma representação minha através dela. Ela ficava me olhando com suas pupilas dilatadas que me encaravam como se procurassem uma resposta em mim e quisessem entender os rabiscos que a vida estava delineando em nós, sentada como se seu corpo se sentisse abraçado por meus olhos toda vez que os desviava da tela para ela. Em determinados momentos sua respiração ficava ofegante e minhas mãos tremiam acompanhando as batidas estupefatas de meu coração. Os contornos dela com meus rabiscos se completavam como instrumentos se completam em uma harmonia de Bach.
Com doze anos, estava olhando o álbum de fotos com as obras do meu professor de desenho. Reparei bem no processo de produção de um quadro a tinta a óleo. No quadro, dois boxeadores se enfrentavam com uma arena lotada ao fundo. Mas antes de pintar, observei que ele fez de rascunho na tela um desenho realista à carvão. O interessante é que se não fosse uma pintura, mas apenas um desenho, estaria concluído. Para alcançar o melhor resultado possível na pintura, ele precisou fazer dois rascunhos. O rascunho do rascunho e o rascunho da pintura. Ainda restando traços que logo foram substituídos, já não era mais possível ver o nosso rascunho. As palavras de ontem começaram a ser esquecidas, as emoções de quando começamos o quadro ficaram no início, e os traços de antes não importavam mais. Agora era preciso fazer contornos mais fortes, usar outras técnicas e observar novos detalhes. Mas, com o tempo, ela começou a ficar entediada e eu a cometer erros que já não podiam ser corrigidos. As pupilas diminuíram e minhas mãos pareciam sempre sujas. Era como se o desenho estivesse se perdendo nele mesmo, estava indefinido e esfumaçado como uma neblina negra. Não importa se o rascunho ficou perfeito se você não consegue concluir o desenho com o mesmo empenho e habilidade com que começou. Há momentos que um esboço se finge de obra prima e esquece que ainda é apenas um rascunho.
Quando a comparei com um seriado, disse que não poderia ver tudo de uma vez e que precisaria ver aos poucos, capítulo por capítulo. Mas a “devorei” como um esfomeado que não come a dias. Não a deixei descansar enquanto a desenhava, não teve uma pausa. A ansiedade nos devora diante da pressa que às vezes temos em devorar algo sem tomar o devido tempo necessário. Mas deve estar na natureza das pessoas destruir as coisas aos poucos como o mundo vem sendo destruído ao longo dos tempos, como o nosso universo que criamos com uma explosão quando nos encontramos foi destruído com o passar dos dias dando fim ao que não tem fim, o infinito. Como a natureza muda, mudamos com o tempo, devagar. De repente, olhamos no espelho e parece que tudo está diferente e as coisas de ontem já não servem para hoje. Os sentimentos de um determinado dia não servem mais para hoje. As palavras que provocaram emoções ontem, não servem mais para hoje. Como as folhas nas árvores nascem, ficam ali por um tempo e depois morrem e caem, os relacionamentos são. Se não se renovarem sempre, como as folhas, eles morrem. O mais importante não é o que faz uma pessoa se apaixonar, mas o que faz o relacionamento permanecer.
Invejo as pessoas que tem um relacionamento como o Retrato de Dorian Gray, o relacionamento que resiste a tudo.

segunda-feira, 4 de março de 2013

Suicídio

Arte de Lucas Richardson

A casa estava vazia. O ensejo perfeito para transformar sua louca idealização num polêmico fato. Cometeria um suicídio artístico. O lusco-fusco se aproximava e logo o sol se despediria para aquele dia, e junto dele, ela daria adeus para a vida. Estando o céu tingido de vermelho, a sua pele estaria tingida de sangue. Significaria o crepúsculo de sua existência, a transição, o marco. Pegaria carona com o negro, o negrume da noite seria a última coisa que veria, como um fade out para sua atual realidade. A penumbra comporia a pintura a marcar sua extenuação, como no quadro “Noite sobre Ródano”, de Van Gogh. As luzes banhariam seu corpo refletindo nele como se fosse um rio. Ela naufragaria deitada sob a janela aberta para o céu agressivamente pincelado: o retrato da paz nocauteado pelo desespero do medo, da morte. Como era uma ocasião especial, ela se arrumou como noiva. Estava linda, pronta para casar, pronta, para morrer.
Caminhou com os pés descalços até a cozinha e apanhou uma faca de açougueiro. A arma perfeita: experiente em ferir a carne; com pós-graduação em corte; com o cheiro de sangue ali esquecido, impregnado. Seria um golpe único, certeiro. Criaria coragem e após respirar fundo – sem pensar e mirando o coração – empurraria a lâmina com força enterrando-a no tórax. Um corte ágil, como um mergulho em água gelada. A dor abraçaria seu corpo e logo ela não sentiria mais nada, afinal, estaria morta. Cravaria a faca no peito, no coração. Rápido e eficaz. Precisava sangrar e sentir a dor, rasgar a pele, dilacerar seu interior.
Tal frenesi, na verdade, se tratava de um suicídio interno, planejado, metafórico. Elaborou se esparramar em sua loucura nua como nasceu, deitada na posição de um bebê no ventre de sua mãe, com as luzes do mundo a cortar o breu da sala escura iluminando sua nudez vestindo suco carmesim. Sentia-se sufocada e presa e incapaz, como uma lagarta no casulo. Carecia do desmoronamento dessa barreira que a cercava. A facada no peito significaria o rompimento do casulo, a demolição do muro, a sua liberdade. Como uma borboleta passaria a ter asas e encontraria o seu voo, se tornaria uma nova mulher. Esqueceria tudo o que quer esquecer, superaria tudo o que quer superar. Forrou o chão com um lençol branco para não deitar no piso gelado e para que o lençol sorvesse seu sangue. Tudo teria um significado. A nudez: o renascimento; o sangue absorvido: a declaração de independência do passado, como um documento, a prova por escrito de seu delito; a cicatriz: a assinatura, a marca perpétua que a faria lembrar que ela precisou se cortar para ser livre. Pensou inclusive em filmar seu delírio tendo a câmera como cúmplice de sua metamorfose, mas logo ignorou a hipótese porque o olho mecânico tiraria a inocência da coisa e tornaria sua liberdade em algo teatral ao roubar a sinceridade do ato.
O plano era perfeito. Alguém a encontraria deitada no chão abrangendo seu corpo, abraçando o crime, encolhendo-se em si mesma, tremendo. E a carregaria no colo como uma mãe segura seu filho que acabou de nascer, ainda embalsamado no sangue e envolvido num pano a protegê-lo: o mesmo sucederia com ela. Levada ao hospital ouviria vozes ecoando ao seu redor questionando sua atitude e sua sanidade, mas ninguém a entenderia. Na maca um sorriso não se ocultaria de seus lábios apesar das lágrimas de dor. Estaria livre, e ninguém a entenderia. Seu desvario consistia num grito de socorro, como se sua alma fosse o corpo e o corpo a alma. Achava que ao ferir o corpo atingiria também a alma. A ferida: a cura; o sofrimento: a cicatrização da alma.
Deslocou-se para a sala e parou em frente à janela, o lugar marcado para morrer, ou renascer. Esticou os braços acima da cabeça segurando com as duas mãos a faca voltada para ela. Levantou seus olhos e viu a lâmina mirando o alvo, pronta para infligir à lei do bom senso. Após semanas de ensaio e preparo psicológico, finalmente estava na posição para dar a largada e colocar em prática sua insanidade, a sua salvação. Ao enxergar a morte na palma de suas pequenas mãos ela pode sentir seu coração rasgar e sua alma se contorcer. Seus braços começaram a tremer, a dúvida tomou conta dela, o medo estava lá. Fechou os olhos. Talvez devesse tentar de olhos fechados, como fechava os olhos para tudo na vida, menos para o medo, e dessa vez, tentava não enxergar o medo, o medo que na verdade era a vontade de viver gritando, e o único medo que ela tentava ignorar era o medo de morrer. Mas, apesar dos olhos cerrados a imagem da faca permaneceu viva e ameaçadora. De súbito toda certeza desapareceu e a dúvida a invadiu como um ladrão, sem ser convidada, e de praxe roubou sua convicção no ato tenebroso que prometia transformá-la. Mas, qual a certeza que essa tal transformação ocorreria de fato? “E depois?”, pensou, “como conviver com as pessoas perguntando sobre a cicatriz? Como encarar a condenação de seus olhos, o julgamento, as fofocas? Ninguém jamais me entenderá. E se eu morrer de verdade?”. Questionamentos que a fizeram retroceder no ato que significaria uma ruptura em sua vida.
Acalmando os nervos, trouxe a lâmina para perto do peito e levemente a encostou como quem molha os pés antes de um mergulho para verificar se deve ou não pular. Sentiu uma picada aguda que doeu de modo que seu corpo estremeceu de pavor. Se uma leve beliscada já provocara certo desequilíbrio em sua convicção, o fim de uma apunhalada talvez não rumasse para o que tanto almejava. “Eu só queria mudar”, dizia para si mesma com o ânimo desabado, com o corpo desabado no chão, de joelhos, com lágrimas a escorregar em sua delicada face.
Ela não sabia, mas já cometia suicídio todos os dias. O suicídio do remorso, o suicídio de viver no passado, o suicídio de viver a lamentar. Queria mudar: mudou de casa, mudou o guarda-roupa, o penteado, as amizades, et cetera. Mas não mudou os hábitos, e no fim não mudou nada.
 Largou a faca, largou seu plano, largou a loucura. Levantou-se, mas se levantou como se estivesse se reerguendo para a vida. O seu teatro não tinha sido em vão. Não seguiria o roteiro ao pé da letra, mas faria uso da metáfora, ou tentaria. Tomou um banho gelado, afinal também cortava a carne, arrepiava a pele. Preparou um chá com biscoitos e foi ver um filme. Conformou-se com sua inconformação. 

Como a luz de uma vela que fere a escuridão com seu fulgor vacilante e um sopro inimigo pode apagar sua chama e fazê-la morrer tão rápido quanto foi acesa; assim é a sua esperança que no abismo pode levá-la a cair ao ser apagada por um vento contrário.

sábado, 8 de dezembro de 2012

Labirinto

Arte de Lucas Richardson

Sinto que minha vida é como um labirinto de vidro. Está uma esplêndida manhã, acordei com o canto lírico dos pássaros em sua reunião diária e harmônica, os pássaros são a própria plateia e todo aquele que aprecia sua orquestra se faz plateia também. Sentado numa grama verde primavera e amena como um colchão, danço meus olhos ao redor contemplando a paisagem banhada pelo sol que pinta o céu com seu degrade vermelho-alaranjado. É primavera e o ar é límpido e agradável, não faz frio nem calor, o sol brilha sem ferir meus olhos e sem sorver o suor de minha pele abraçada por uma brisa suave que paira sobre este jardim perfeito. Posso ver a alegria das flores que espreguiçam com o nascer do dia ou o nascer da vida, flores de todos os tipos e tamanhos e cores e cheiros, rosas, azaleias, lírios, margaridas, girassóis. Eu poderia deitar e nunca mais me levantar. Mas, estou “preso”, encurralado num labirinto de vidro. Sei que parece contraditório um labirinto formado por inúmeras paredes transparentes como água cristalina que me permitem enxergar até onde meus os olhos conseguem ver, tornando assim mais fácil o mistério do caminho, mas por mais contraditório que pareça é em ver que está o mistério. Olho para o horizonte e avisto o fim do labirinto, um portão de prata muito grande e aberto como se estivesse aguardando minha chegada. Mas, apesar de enxergar a saída estou preso, embora eu saiba qual a direção seguir estou encurralado, apesar de ver a saída não vejo uma saída. Já não sei mais há quanto tempo estou neste lugar, e também não me preocupo com isso e não me preocupo com nada. Uma das melhores coisas é não ter preocupação nenhuma e não ter relógio e esquecer que o tempo existe. Labirintos são como uma caixinha de surpresa com uma fechadura que para ser aberta você precisa solucionar um enigma, quando você entra em um labirinto você vai caminhando e procurando até encontrar o centro dele e descobrir o que te aguarda, pode ser algo bom ou ruim ou os dois ao mesmo tempo. No entendo, estou no centro sem saber como cheguei aqui e só existem duas opções: permanecer e desfrutar desse manjar até o fim dos meus dias ou descobrir o que me aguarda na saída. Irônico, em vez de não saber o que me espera no centro eu não sei o que me aguarda no início, que na verdade parece ser o fim. E fico a perguntar-me, “o que me espera no fim desse enigma? Será que vale a pena largar o conforto deste inicio para chegar a um duvidoso fim?”.
Acomodado, permaneci onde estava vivendo sem preocupações apenas comendo e bebendo e dormindo. Acontece que a primavera não é eterna e o outono anunciou sua chegada e fez as flores e todas as plantas e árvores chorar suas pétalas e folhas por toda parte revestindo o chão do jardim como um imenso lençol. O ar ficou mais frio e passou a incomodar de madrugada e o único refúgio que encontrava era namorar o céu forrado por um tapete de estrelas sem fim acompanhado pela lua encantadora. De súbito, como um presente de grego, da noite para o dia o inverno invadiu o labirinto e uma chuva de gelo banhou meu corpo e a neve deitou sobre a grama e cobriu toda sua extensão como um imenso cobertor branco. A geada embaçou o vidro do labirinto inteiro tornando-me cego para o que antes era o meu privilégio e agora eu não podia mais ver por entre os muros, o labirinto de vidro se transformou em um labirinto comum, um enigma, a charada do caminho. Eu tremia de frio de extremidade a extremidade. Restaram-me duas opções: ou morria congelado ou encontrava a saída.
O tempo que era longo se tornou curto e o que era claro se tornou escuro. Destrinchei aquele labirinto com minha memória usando a lembrança das muitas vezes que observei o portão aberto. Comecei a caminhar antes que congelasse me encolhendo em meu próprio corpo e aquecendo-me com minhas mãos. Por um tempo me convenci de que estava perdido e que ia morrer e que eu havia cavado minha própria cova. Parecia inútil tentar recuperar o tempo perdido, “você teve todo o tempo do mundo para sair daqui seu idiota”, eu pensava e me martirizava e reclamava. Perdi a noção do tempo e já não via diferença entre dia e a noite e após vagar desgovernadamente como um milagre eu encontrei o tão sonhado portão. Mas, nem tudo era como eu esperava. O portão estava fechado e preso em sua imensa grade de prata tinha um enorme espelho com uma inscrição em letras garrafais gravadas na parte superior dizendo, “Diga olá para o seu novo eu”, e quando encarei minha face e olhei em meus olhos, meu coração disparou e fiquei branco como a neve que cobria meus pés. Eu estava dez anos mais velho. Engordei alguns quilos e em meu rosto surgiram algumas rugas e marcas e minha aparência estava cansada.
Como mágica de súbito o portão misteriosamente se abriu e o que eu pensei ser o fim era apenas o início. Aquele labirinto adentrava em outro labirinto também de vidro, mas três vezes maior, e nele não havia inverno, o sol era quente como no verão. Com um pé eu pisava em branco e com o outro em verde. E eu que achava que ao adentrar no novo labirinto aquele inverno se extinguiria me surpreendi ao passar de um lado para o outro e ver o portão se fechar atrás de mim e o inverno permanecer como uma fotografia, imutável. Todavia, no espelho com as mesmas letras garrafais agora havia apenas duas palavras escritas, em cima, “passado” e embaixo “lembranças”. Ao ver meu rosto no espelho eu podia enxergar todas as minhas fazes da vida e as muitas faces do meu passado. Virei-me e admirei aquela planície praticamente sem fim com paredes de vidro por todos os lados. Eu tinha duas opções: seguir em frente ou esperar pelo inverno.
Naquele momento senti falta de ter a vida inteira pela frente e a oportunidade de poder ser o que quisesse ser, como fazer. Senti falta de ter o tempo, os anos e a vida ainda intactos e de não ter preocupações. Mas, o fato de não ter preocupações foi o que acabou me acomodando a não me preocupar e por isso perdi muito tempo com a ideia de que o tempo era eterno. É impossível recuperar o tempo perdido, porque para recuperar o tempo perdido no passado é preciso sacrificar o seu tempo do presente. Tempo perdido é tempo perdido. Senti falta da oportunidade que tinha de não estragar minha vida.
De repente, desperto de um sono profundo e percebo que tudo não passou de um sonho, mas sou tomado por uma noção de realidade tão grande que chego pensar que o sonho não é um sonho e que de fato estou dez anos mais velho. Corro para o espelho e ao ver que nada mudou, volto a dormir.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Reflexo

Arte de Lucas Richardson

Fecho meus olhos e me assisto em meu passado, como um filme de trás para diante, vou rebobinando a memória e caminhando ao contrário em minha imaginação. Vejo meu rosto rejuvenescer na medida em que vou retrocedendo, e permaneço descendo na escada da vida, cada degrau simboliza uma idade, e em cada degrau há um baú, e nesses baús estão escondidas minhas lembranças daquele ano, e abro um baú por vez, danço meus braços em cada um deles procurando memórias, buscando sorrisos esquecidos e lágrimas eternizadas, e conforme vou descendo, minhas emoções vão mudando, e passo a me conhecer de uma maneira que não me conhecia, começo a entender dores que antes eram enigmas, e muito do que antes não fazia sentido algum passa a fazer todo sentido, mas sempre haverá o desejo de mudar o que não se muda, e o anseio de voltar e fazer diferente. Passo por meus quinze, quatorze e treze anos, e prossigo descendo, até que chego aos meus sete anos de idade, e nesse baú eu encontro suor, lágrimas e sangue derramado, além de sorrisos e o desejo de fugir, e entendo que muito da minha vontade de não querer encarar os meus medos vem dos acontecimentos da infância. Observo o meu eu infantil em um dia marcado pela dor, e reparo aquele menino todo machucado, com a face em carne viva, que fora desafiada pelo asfalto quente e pelo sol de verão, afligida pela desobediência ao contradizer a palavra de sua mãe, um breve erro que lhe custou um grave acidente. Eu não sabia, mas meu inconsciente já vinha me preparando para o pior através de sonhos maus, ou pesadelos, ou quando sonhando caminho para o nada e do nada encontro um abismo e do abismo caio para o nada, e nesses momentos de desespero e medo em que me deparo, sempre acho uma saída, que é acordar, como se acordar significasse encontrar a liberdade para tudo o que é ruim, mas o engraçado é que acordado, em diversas ocasiões anseio sonhar para fugir da realidade, e muitas vezes vivo nessa contradição entre o sonho e realidade, quando o que quero é apenas fugir do que é ruim. Se o sonho for tenebroso, faço de tudo para acordar, e quando a realidade é sofrida, quero sonhar, o que me faz optar para o caminho da imaginação, o espaço entre o sonho e a realidade em que tenho total controle sobre minhas ações e desejos e acontecimentos. Continuo me assistindo e observo aquele menino que se encontra atirado no asfalto cáustico, com o semblante dividido entre a carne e o sangue após ser drasticamente atropelado. E ao ouvir o som da tragédia composto pelo timbre da voz de uma criança, e não uma voz qualquer, mas uma voz inconfundível para os ouvidos de seu pai, que corre ao encontro de seu filho, e ao vê-lo ali, agonizando, às pressas pega-o em seu colo, e o abraça com segurança, como se dissesse com seus gestos, “eu estou aqui, filho, vai ficar tudo bem”, e aquele menino confia em seu pai, apesar do choro que lava seu corpo juntamente do sangue derramado, e lamenta em voz alta, “pai! É só um sonho, não é? Eu vou acordar, não vou? É só um sonho pai, eu sei que é só um sonho, sei que vou acordar, não vou?”. Chorava porque não queria pagar o preço por meu erro, não ansiava enfrentar a dor, queria “acordar”, mas não adianta tentar substituir a realidade da dor por uma fantasia, é possível tentar, e pode ser que por alguns momentos, ou até mesmo horas, funcione, e funciona, mas em seguida, lá está a dor de novo, machucando e me desafiando a vencê-la. Às vezes desejo "morrer", anseio por uma "morte" súbita, um falso perecer, para certos momentos de desespero, medo ou aflição, para que eu possa acordar e de repente tudo estar resolvido, como mágica. E seu pai, para confortar o coração daquele menino, disse, “sim filho, é só um sonho, logo você acorda, é só um sonho”.
E como o garoto queria desafiar a realidade com a fantasia e esquivar do que é real através dos sonhos, o menino que hoje é o meu eu adulto, não mudou. Sempre que a dor ou um problema ou o sofrimento batem à minha porta, finjo que não estou em casa, ignoro a campainha do desespero, e simulo que estou dormindo, desejo que seja um sonho, procuro fugir e não encarar o que deveria enfrentar. E para escapar do que não quero confrontar, recorro à arte, leio um livro e converso com o autor em silêncio, ou escrevo e vomito no papel toda minha angústia, ou assisto a um filme para me desvencilhar da minha realidade e “viver” outra “realidade”, ou descarrego em alguém tudo o que estou passando como um diário falado, ou saio pelo mundo recolhendo saudades para dentro de casa observando e fotografando, ou me torno um artista que se perde nos próprios traços desenhando e pintando, ou deixo a música me transportar desta realidade para outra. Mas, cada um tem a sua válvula de escape, e o que mais me ajuda a fugir da realidade é o cinema, o lugar onde os sonhos são reais, a fantasia finge ser autêntica e a ilusão brinca de realidade. No cinema vivo grandes emoções, estímulos que apesar de serem arquitetadas por um diretor, em diversas ocasiões parecem ser mais reais que a própria realidade. Quando o filme começa, a mente viaja para longe, navega no mar da imaginação e os olhos brilham, como os olhos de um navegador que enxerga terra à vista após meses e meses “perdido” no oceano, e seu coração dispara, porque todo o pesar está para trás, o sofrimento da viajem valeu a pena, porque agora ele está onde queria, a terra é a realização de um sonho, é a fantasia se tornando realidade, e os sonhos são reais no cinema, a mente encontra terra firme para descansar, a terra que é o sonho realizado. Mas, o navegador descobre que era apenas uma miragem, percebe que a ilha não existe, e todo aquele brilho se apaga, é o momento em que as luzes se acendem, quando o filme termina e acordo do sonho, que, apesar de parecer tão longo e real, foi tão curto e irreal. E o sofrimento que deveria ser breve, é cada vez mais longo, os problemas que foram esquecidos são lembrados, a dor volta a existir e o sonho a coexistir. A dor muitas vezes é apenas o reflexo da realidade, mas uma realidade que não quero enxergar ou aceitar, e em várias situações desisto de lutar e acabo acolhendo essa dor como uma mãe acolhe seu filho, passo a conviver com ela, e sem perceber isso vai consumindo meu interior, até que acordo, como se estivesse em sono profundo, e espero que tudo seja apenas um sonho, uma fantasia passageira, o que não é.
De tudo o que passei, permanecem cicatrizes em meu corpo, internas e externas, porque a dor eu já não me recordo mais, a agonia foi esquecida, o sentimento do pesar desapareceu, mas ficaram cicatrizes para que eu pudesse me lembrar da dor, e jamais esquecer o meu erro, seja o que for que me fez sofrer, assim como a alma também fica marcada com vestígios internos. As cicatrizes servem para me lembrar das dores que foram esquecidas.

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Frederico

Arte de Lucas Richardson

Frederico estimava a vida como uma valiosa dádiva, assim como um menino pobre valoriza um presente que nunca imaginou ganhar, ou que sonhava muito, mas que jamais acreditou que fosse realmente obter. Fred era um cachorro, mas não um cachorro comum, era esperto, indomável, metido e orgulhoso, não via obstáculos, apenas desafios, não se importava se a fêmea fosse mais alta, ou com o tamanho do seu oponente numa briga, nem em ser atropelado, e nenhuma grade ou porta ou portão conseguiam segurá-lo quando sua intenção era vagar pelo mundo, e fugia para depois voltar para casa, não suportava coleira. E como a juba é para o leão seu pelo era a sua vaidade, branco e macio como algodão, além de liso e comprido. Mas, o tempo passou e Frederico se viu abandonado por seu dono, um homem que não lhe dava mais carinho e amor, não o alimentava direito, não brincava, não o lavava e nem mesmo olhava para ele, e envelheceu, ficou cego e foi tomado por sardas e pulgas, seu pelo deixou de ser como era, estava caindo, todo embaraçado, imundo e encardido com seu sangue de tanto que se coçava. Manhoso, chorava todos os dias porque ansiava por atenção, estava sozinho, abandonado, machucado, e perdido em seu reino parou de latir, não se ouvia mais seus brados de alegria, de sua boca ecoavam apenas prantos que clamavam por ajuda. Até que Frederico parou de lutar pela vida e se deu por morto, nem chorar chorava mais, nem se coçar se coçava mais. A falta de amor o estava matando, a ausência de carinho havia lhe preparado o caixão antes do tempo. Acordado pelo silêncio, aquele homem foi ao encontro do seu cachorro e o viu abandonado por ele mesmo, e abismado com o que tinha permitido, ao avistá-lo ali, com seu brilho apagado, abatido e magro, com as pernas bambas e quase inanimadas, correu dar banho em Frederico com a esperança de que a água lavasse seu erro e purificasse seu cachorro e o libertasse da culpa que naquele instante tomou conta do seu coração. A compaixão se faz presente quando enxergamos e entendemos a dor de quem sofre. Mas, quando Frederico estava todo encharcado, aquele homem pode ver a carne ferida dele, o pelo marrom se desmanchando, a água suja escorrendo por suas mãos e aqueles vermes que se multiplicavam cada vez mais, seus olhos se arregalaram e ele se viu naquele cachorro, como um espelho que mostra o reflexo da alma, e sua alma estava se deteriorando, toda ensanguentada, cheia de vermes, magra e abandonada, ele havia se esquecido do seu cachorro porque havia se esquecido de si. E percebeu que não olhava para ele por medo de enxergar a verdade, e fugia de si mesmo por receio de ver o que se ocultava em seu intimo, a podridão do seu coração. Aquilo apertou seu âmago de tal modo que começou a chorar como um bebê que perdeu sua mãe, e aquele homem se sentiu abandonado e completamente sozinho, contudo não apenas esquecido pelo mundo, mas abandonado por ele e dele mesmo, e seu coração cingiu dentro do peito até que perdeu o fôlego, e só assim percebeu que tinha perdido o ar de viver e que sua alma já estava praticamente morta, deteriorada por falta de cuidados, como estava Frederico. Ele se encheu de remorso e a culpa o fez vomitar de nojo por si mesmo, e de tanto chorar suas lágrimas foram lavando sua alma, e aquele homem se arrependeu, abraçou Frederico como nunca e o apertando em seu corpo com todo o amor que tinha e esparramando lágrimas, uivando clamou por perdão. Amar é sentir em você a dor que não é sua e se arrepender quando você é o instrumento da dor. Fred, depois de muito tempo, latiu três vezes o mais alto que pode e desvencilhou a beijar aquele homem.
Deveríamos perdoar como os cachorros perdoam.